O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Carta do Cónego Teixeira dirigida ao Papa Pio X, de 02 de setembro de 1912.

Com a devida vénia e todo o respeito que o espírito dele merece, e como homenagem póstuma, se transcreve um trabalho de sua autoria feito em Setembro de 1912, respeitando a ortografia de então, publicado no – Espiritismo Racional e Científico Cristão – 2ª. edição 1927, o qual foi enviado ao Papa Pio X, em Setembro de 1912, ora publicado no livro Pão do Espírito, páginas 14a20, (edição esgotada) de autoria do escritor Cabo-verdiano Sr. Martinho de Mello Andrade.

Há uma referência que se destaca em sua carta, cita sua aprendizagem com dois médiuns vindos do Brasil;
Passando-se e demorando-se nessa ilha dois médiuns, vindos do Brasil, tive eu a felicidade de observar mais caracteristicamente, a extraordinária evidencia e importância moral dos factos.”

Portanto, é uma referência contundente, que nos leva a considerar que o Senhor Augusto Messias de Burgos, ao angariar o respeito do Cónego Teixeira, autoridade máxima da igreja em Cabo Verde, precisou de tempo e bom conhecimento sobre o “Espiritismo Racional e Cientifico" codificado pelo mestre Luiz de Mattos, para esclarece-lo sobre a dualidade da vida.

Assim, ao levar a semente de tão bela Doutrina à Cabo Verde, nota-se que, passados pouco mais de 100 anos, é fato notório que a semente foi bem plantada, pois o Racionalismo Cristão está presente em 7 das 9 ilhas de Cabo Verde, e continua gerando novas sementes, que são levadas pela espontaneidade do povo Cabo-verdiano à enfrentar o mar e alcançar países distantes.


EXTRAÍDO DO ESPIRITISMO RACIONAL E CIENTÍFICO CRISTÃO
2ª. Edição  - 1927
ESPIRITISMO
PARTE VI DO RELATÓRIO DIRIGIDO À SANTA SÉ

Da estranha, ignará, abstracta e arbitrária imputação da heresia (!) seguida da penalidade da prohibição de dizer missa na igreja e nas capellas, com a dupla coação phisica e moral, dentro da própria freguezia que considero canonicamente minha enquanto o contrário não fôr resolvido pelo Summo Pontífice, nada posso dizer concretamente, enquanto não fôr concretamente accusado, para então me defender perante quem de direito pertence ouvir e julgar-me.

Mas, constando-me aberta uma secreta devassa, diligenciada pelo já referido anti parocho Loff, e tendo eu sabido por um dos depoentes, meu acolytho de missa, que uma das inquirições é o facto de eu estudar o espiritismo, vou, com muita satisfação, expôr à Vossa Santidade, com toda a franqueza e lealdade, o que penso a respeito, sujeitando-me de boa mente, a vontade, à suprema decisão da Santa Sé e do Soberano Pontífice, a cuja obediência tenho a mais intima satisfação de prestar a mais completa homenagem.

Beatíssimo Padre!

Depois de haver lido alguns livros catholicos que combatem o Espiritismo, tive a opportunidade casual de observar de perto factos espíritas, que deixaram no meu animo a certeza de sua realidade objectiva, inilludivelmente palpável, hoje em toda a parte e até espontaneamente na própria residência de quem tenha vontade de observa, e mesmo sem essa vontade.

Passando-se e demorando-se nessa ilha dois mediuns, vindos do Brasil, tive eu a felicidade de observar mais caracteristicamente, a extraordinária evidencia e importância moral dos factos.

Desconfiado, porém, da natureza do occulto agente, e desconfiado ainda da realidade da transmissão effectuada pelos mediuns, fiz um estudo comparativo e minucioso, convencendome afinal, depois de muitas observações directas, de que esses agentes, como alias nos attestam a Historia Sagrada e a profana, não são somente os espíritos maus mas também, as vezes, exclusivamente, os espíritos bons, enviados pelo próprio Deus, infinitamente poderoso, justo e misericordioso, para a instrução e regeneração da humanidade, para a conversão dos incrédulos iludidos e transviados do caminho da fé e da moral, descortinando-se e apalpando-se como que materialmente a realidade e modalidades da vida espiritual, a verdadeira vida activa, progressiva eterna.

Convenci-me de que a palavra “medium” não significa mais que um meio, um instrumento. Um verdadeiro medianeiro dos espíritos, revestido de dons que só a Deus pertence conceder, como e quando lhe apraz, para agente extraordinário da Verdade e Amor, sendo feliz aquelle que corresponde à graça, e infeliz aquelle que a despreza.

É assim que o Espiritismo considera mediuns todos os prophetas e thaumaturgos, todo os grandes missionários do Bem, como por exemplo: Santa Joana d’Arc, vendo, ouvindo, agindo; Santo António, desdobrando-se e operando; S. Paulo, vendo e ouvindo Jesus;
Beata Margarida Alacoque, em Peray, ouvindo e recebendo revelações bem como Melania e Mário em La Salette, e Bernardete em Lourdes, ouvindo e conversando com a Immaculada; S. Francisco de Assis, Santa Thereza de Jesus directamente, materialmente operadas destacando-se os factos dados com a eleição de Santo Ambrosio, pagão, governador civil, proclamado por um medium criança para substituir o tyranico Auxencio, injusto e mau, agindo a moda de S. João Baptista contra os grandes criminosos, e desdobrando-se para assistir ás exéquias de S. Martinho em Tours, estando adormecido em Milão, durante a missa que celebrava.

Medium ou piedoso medianeiro do Espírito Santo foi Scupoli no “combate espiritual”, foi kemps na “Imitação”, foi São Francisco de Sales na “Pholothéa”, foi Santo Affonso de Ligorio nas suas obras, foi Affonso Rodrigues nos “Exercícios”, foi Arvisenet no “Memoriale”, foi Santa Thereza, Santa Gertrudes, de la Puente, São João da Cruz e tantos outros nas suas mysticas obras, quaes Evagelhos immenso amor de Deus e do próximo, quaes therapeuticas divinas, agindo elles como engenheiros, como cantoneiros, como guias de contricta estrada que conduz á porta estreita da larga mansão da vida eterna!

E taes são os bons médiuns, de moral perfeita, servos fieis que não desprezam a graça, os dons que recebem santificando-se a si e santificando ao próximo.

Mas aquelles que desprezam esses dons e se não santificam, servindo de escandalo em vez de exemplo, abusando da graça, tornando-se perversos, pela soberba, pelo egoísmo, pela escravidão dos prazeres, pela pratica do mal, esses são os mediuns dos maus espíritos que attrahem por suas culpas, por sua impenitência, servos inúteis, servos, rejeitados, mas sempre perdoados, quando arrependidos, porque é infinita a mesericórdia divina.

D’ahi, segundo os instrumentos bons ou maus, os dois campos diversos, oppostos, distinctos do Espiritismo.

Dum lado, o bom, racional, piedoso e benéfico, organizado pelos bons espíritos, em missão do bem, e só do bem, servido por mediuns da moral perfeita e coração piedoso, constituindo na terra e no Espaço o verdadeiro Reino de Jesus; d’outro lado, o mau, supersticioso, irreverente, orgulhoso e maléfico, organizados pelos espíritos maus, em prática do mal e só do mal servido por médiuns perversos, immoraes desde o curandeiro, o sortilego, o feiticeiro até os soberbos phariseus e os vendilhões do templo, constituindo na Terra e no Espaço o tenebroso reino chamado de Satanaz, que sabe “quod modicum tempus palet!...”.

APOCALYPSE XII 12

Aquelle, desfraldando a bandeira branca da pureza, caridade e paz, tem no Brasil, o nome de Espiritismo Racional e Scientífico, por poucos conhecido, mas que ainda infante, no seu berço da cidade de Santos, já converte ao Christianismo atheus, materialistas, sábios, judeus protestantes, pagãos e sectários de todas as religiões, curando enfermos, expulsando demónios ou espíritos maus, matando a fome, saciando a sede, vestindo nús, regenerando grandes e pequenos, sacerdotes e leigo, ricos e pobres.

Este, defraldando a negra bandeira do vício, da guerra e do ódio em todos os tempos, em todos os logares, sob diversas formas e títulos, e praticando consciente ou inconscientemente todos os males, recrudesceu da ira, ao saber que se puzeram em campo, em reniado prelio, os bons espíritos sob vontade divina, para resultar sem demora, effectiva até a eternidade em todos os séculos e mundos felizes, superiores à Terra, obra da nossa redempção consumado no sacrificio da Golgotha pelo Divino Mestre, sempre presente onde houver dois ou três piedosamente reunidos em seu nome, continuamente na Terra, na sublime concentração do Augusto Mystério da Eucharistia e que sempre activo, generoso e zeloso na sua vinha, não pode permitir o exclusivo império dos maus contra os bons que protege, abroquella e guia, como seguro caminho, verdade e Vida Foco de Luz e Amor que desterrará para mundos inferiores os espíritos rebeldes perturbadores da paz, da ordem e do bem social e eterno, como já na prece final das missas diariamente suplicamos à Omnipotência divina.

E Sucumbirá a bêsta do Apocalypse, porque já não há mais força humana, força creada, capaz de obstar a que dois ou três disciplos de Christo, pobres ou ricos, sábios ou ignorantes, sacerdotes ou leigos, ligados pelo amor, concentrados em Deus, se reunam com a sua porta fechada ou na praça pública, e, em nome de Jesus, formulem os seus pedidos, queimam o puro incenso dos seus corações, teçam de luz e amor esse maravilhoso cordão de fervorosa prece, que envolve, illumina, irradia, attrae e santifica, traduzindo-se em suavíssimas commoções de alegria e paz, amor e bondade!

E não há poder tenuemente capaz de abstrair a que Jesus desça aos corações piedosos e puros humildemente suplices, porque a sua divina palavra jamais deixara de ser cumprida, porquanto Elle disse: – Pedi e recebereis!

E tal reunião é a piedosa sessão espirita, em cujas correntes e torrentes de graça se curam os doentes.

Sou, pois, espiritualista, porque não sou materialista, e porque o que antes por princípios eu cria, eu o creio agora por experiência própria, pela razão esclarecida, pelo Dom de Deus que a todos seja concedido conhecer.

E sou espirita, porque creio na realidade dos factos ou manifestações espiritas, reaes, palpáveis, tangíveis, iniludiveis, ao alcance de todas as observações, experimentalmente verificadas, scientificamente exactas, não entrando, porem, em controvérsias subtis e infecundas, nem pretendendo prescrutar os mystérios divinos ou princípios eternos, ainda escondidos, a nossa condição actual, mas recebendo só aquillo que me dá, e agradecendo e comunicando tudo o que recebo.

E também sou médium, medianeiro da misericórdia Divina, escrevendo o que me é ordenado, dizendo o que é preciso, agindo como fôr necessário, embora a minha cabeça, à imitação da do Baptista, tenha que merecer as honras de uma salva de prata nas mãos das Herodiades dos tempos hodiernos.

Não tenho culpa de ser medianeiro na cura dos doentes, na expulsão dos espíritos obsessores, pela simples imposição das mãos e pela prece a Deus, Pae Omnipotente, pelos merecimentos do Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhuma culpa tenho, quando com surpresa, espontaneamente, vejo maravilhas de luz, suavíssimas, bellas com extraordinária commoção de amor, alegria e paz que só Deus provêm.

Reduzido a mais fervorosa fé dos meus tempos juvenis, abroquelado dentro de uma esphera de mortalidade que por alguns annos esquecera, abrazado no amor do próximo, perdoando aos inimigos de quem antes desejara vingar-me; dedicado à piedade, ao trabalho e à regeneração espiritual dos meus irmãos, resignado e feliz no soffrimento, que me dará a coroa do bom combate _só me resta agradecer a Deus a graça de me haver dado a conhecer o Espiritismo que me regenerou, que me vivificou.

Ora, o bom fruto só da boa arvore é que pode provir, segundo as palavras do Redemptor.

E se Satanaz, imputado agente de todos os factos espiritas, nos proporciona paz arredando-nos do mau caminho, fazendo nos bons christãos, moraes piedosos, humildes, caritativos, puros, é porque então elle próprio está convertido, e tomou a missão reparadora de exterminar o mal, porquanto se satanaz expulsa Satanaz, o seu reino cae, como aos Phariseus respondeu o Christo jesus.

É que é chegado, Santíssimo Padre, o tempo da poda; e a gemebunda Rola dos Centraes não consente mais o desperdício do seu amor despadaçado na Rua de Amargura, crucificado no Golgotha, escarnecido na Terra.

O Espiritismo piedoso e puro é para mim a alavanca de Archimedes, o sapientíssimo Leme que o Pae não tarda a entregar ao timoneiro da sua barca para alcandorar até as excelsas moradas, preparadas pelo seu unigénito filho, à miséria humanidade, redimida no calvário, completando-se então os eternos desígnios e effectuando-se o Reinado de Jesus.

Parece-me, pois, que os factos espiritas devem merecer attenção analytica de todos, dando-se-lhes uma segura orientação, de forma a aproveitar-se a boa vontade dos que já crêem no Allem, e dos que já não podem esconder a lâmpada por baixo do Alqueiro.

Quanto a mim, não desprezarei nunca os danos e talentos, que me são misericordioso, summamente concedidos, antes os cultivos como bom servo do Envangelho, sujeitando-me a todas as vicissitudes provocadas pelos maus espíritos que presentemente confessam não terem poder algum sobre mim, mas que de certo não deixarão de fornecer-me os meios da luta que me trará a corôa do bom combate, se bem combater, ou que me dará a perdição se, olhando para trás, pusilanimemente me deixar avassalar, succumbindo no prelio.

Firme, porem, no meu posto, espero de Deus toda a sua misericórdia, todo o seu auxílio, para prosseguir intemerato sempre, no bom caminho, com toda a caridade com boa consciência, com fé não fingida, como ensina S. Paulo, para que vencedor receba o desconhecido maná de Apocalypse.

Vejo no Espiritismo commum, opportuno e providencial, destinado a reunir, pela caridade, em um só rebanho, e sob um só pastor, as almas redimidas no calvário, mas actualmente confusas, divididas, dispersas, pela ignorância, pelo egoismo, pelo orgulho, pelo ódio religioso, completando-se as prophecias dos últimos tempos, que parecem chegados, como luminosamente expõe Leão XIII na sua encyclica “Divinus illud munus”, e outra sobre a unidade da fé, a realizar pelo Espiritismo Consolador, que a Vossa Santidade e a todos vós assista, em luz, caridade, amor e paz.

S. Vicente de Cabo Verde, 2 de Setembro de 1912