O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Padre António Vieira - Sangue Cabo-verdiano!

ANTÓNIO VIEIRA
O PADRE JESUÍTA DO HUMANISMO E DA ETERNIDADE

Falamos de António Vieira, pregador, poeta, diplomata, filósofo, reformador e lutador dos direitos humanos.

Foi exatamente a 20 de maio de 1653 que numa carta escrita no mais alto teor da sua rica linguagem, António Vieira, desde o Maranhão, na época, então Cidade do Estado do Pará, no Brasil, invoca os maus tratos aplicado pelos colonos aos nativos. mais tarde, viria a luta contra a escravatura e as denúncias feita com muita coragem.

No dia 6 de fevereiro do ano de 1608, numa pequena casa situada na rua dos Cônegos, mesmo ao lado da Sé de Lisboa, encosta do castelo de São Jorge, nascia António Vieira.
Segundo se consta, o pai de António Vieira, foi Cristóvão Vieira Vasco, natural do Alentejo, e de uma senhora chamada Maria de Azevedo, nascida em Lisboa, mas mulata e descendente de uma família das primeiras a chegar a Lisboa trazidas de Cabo Verde.

Aos 6 anos de idade António Vieira parte com o pai e mãe para a Bahia no decorrer do ano de 1614. Vieira iniciou a sua educação no colégio dos Jesuítas do Salvador. Aos 15 anos pede aos padres mestres que o incluam na Ordem da Companhia de Jesus.

Depressa se faz notar a suprema inteligência de António Vieira e a rapidez com que aprende as matérias que o ocupam nos estudos ao longo do dia.

Durante alguns anos o grego, hebraico, latim, astronomia, pregação, catequese, filosofia, matemática, física, retórica e teologia, fariam dele um sábio, anos mais tarde.
Colégio de Olinda desde 1535

Os conhecimentos foram tão bem assimilados que aos 18 anos foi convidado para ser professor de retórica no Colégio de Olinda, pequena localidade do Recife.


Pode-se dizer que o ensino começou a fazer parte da vida de António Vieira muito cedo. E muito cedo ele também começou a viajar pelo interior do Brasil num trabalho de pregação junto das populações indígenas. A transmissão do Cristianismo e dar a conhecer a riqueza dos valores da alma foi sempre a razão missionária do jovem pregador nascido em Lisboa mas de sangue africano e que se sentia cada vez mais aproximado das gentes sacrificadas e exploradas.

António Vieira viajou bastante pelo interior do Brasil e chegou a ser mediador na guerra entre Portugueses e Holandeses, viajando para o Pernambuco para manter conversações com o Príncipe de Nassau.

Com a subida ao trono do rei Dom João IV, António Vieira é chamado a Lisboa. A partir de então com 30 anos, Vieira passa a fazer papel de diplomata e assim transforma-se num dos embaixadores mais ativos de sempre. Serve a coroa portuguesa em Paris, Roma, Amsterdã e Castela.

Depois de vários anos em ação diplomática pela Europa, Vieira chega a Portugal e sabe da perseguição dos Judeus pela inquisição.

Vieira não perde tempo e apressa-se a defender aqueles Judeus que entretanto se passariam a chamar de Cristãos Novos.
Gravura Salvador Antiga
Parte da ilustração holandesa de Hessel Gerritsz,
de 1627. O Colégio dos Jesuítas está 
indicado como

Jesuiten CloosterNa época existia uma capela dos
jesuítas no local. A igreja de S. Salvador
(atual Catedral) só seria iniciada em 1656.
Em 1652 Vieira é convidado para ser embaixador na Inglaterra.

Entretanto, rejeita a oferta porque neste mesmo ano já está com a mala feita para voltar mais uma vez ao Brasil.

Sai de Lisboa em Novembro e chega a Cabo Verde no dia 20 de Dezembro à cidade da Praia. Nas poucas semanas que passa em Cabo Verde, António Vieira apercebe-se da necessidade do reino construir uma escola naquela colônia e escreve no dia 25 de Dezembro uma carta ao Príncipe Dom Teodósio e outra ao rei.

Vieira diz na sua carta que há uma necessidade urgente de se criar uma escola de ensino para os habitantes que mostram uma inteligência fora do vulgar e um esclarecimento louvável e merecedor de atenção por parte da coroa.

Uns anos mais tarde seria aberta a primeira escola missionária feita pelos Portugueses em África e construída na Cidade Velha, que também foi a primeira cidade fundada pelos Portugueses em África. A partir de então, as relações de António Vieira com Cabo Verde foram sempre atenciosas e carinhosas. Vieira chamava aos Cabo-verdianos de conterrâneos.
(clique em qualquer foto para ver como Slide/Ficheiro)
Nesta Capela (S.Francisco) próxima ao Convento de São Francisco, Padre António Vieira da seus primeiros sermões em Cabo Verde e, é também onde ficava em descanso entre idas e vindas entre o Brasil e Portugal
(clique em qualquer foto para ver como Slide/Ficheiro)
Ruínas do Convento de São Francisco
"Cidade Velha, patrimônio da humanidade" - Ilha de Santiago


Com a chegada ao Brasil em 1653, Vieira volta à sua ação evangelizadora e a 22 de Maio está no Maranhão a pregar na cidade de São Luís a prédica intitulada: “ Sermão dos Escravos “.



António Vieira escreve então neste mesmo mês de Maio ao rei uma notável carta criticando os horrores da escravatura. Vieira defende na carta a liberdade dos índios, tudo aquilo que flagela os negros e os abusos dos colonos.

Vieira ainda viaja pelo Pará e em 1654 decide viajar de novo para Lisboa à procura de algum remédio que pudesse salvar os índios e encontrar uma solução para acabar com os escravos. A viagem, um pouco atribulada e depois de serem abordados por piratas, chegam finalmente à ilha da Graciosa, nos Açores, passando também ainda antes de voltar para o continente, pela ilha da Terceira onde entusiasma a população com a sua presença e leitura de alguns famosos sermões sobre a espiritualidade Cristã.

Chega em Janeiro de 1655 e já na cidade de Lisboa, depois de realizar várias conferências religiosas onde ataca a corrupção nas colónias ultramarinas e criticando a corte real de indiferença face aos problemas nacionais, consegue, enfim, um novo Governador para o Pará e o Maranhão.

Vieira volta a partir para o Brasil em Abril, terra onde irá permanecer durante mais 6 anos, em busca de justiça para os índios, viajando pelo Amazonas e ao longo da costa do Maranhão à Bahia; do interior do Pará às serras de Ibiapaba.

No ano de 1656, a 6 de Novembro, morre o rei Dom João IV e a 20 de Novembro , o padre Jerónimo de Araújo, da igreja da Madalena em Lisboa denuncia ao Santo Ofício o padre António Vieira. Este, vê-se expulso do Brasil pela perseguição feita pelos colonos que acusam Vieira de incitar os índios à revolta.

A 8 de Setembro regressa e no ano de 1661, passa mais uma vez por Cabo Verde onde faz uma estadia de algumas semanas na ilha de Santiago. Volta de novo a observar a população da ilha e a saber das condições dos nativos. Faz apontamentos para mais tarde entregar ao novo rei Dom Afonso VI. Vieira chega já nos fins de Novembro a Lisboa e no ano seguinte de 1662 é desterrado pela ordem religiosa para a cidade do Porto, sendo em 1663 conduzido para Coimbra e em Fevereiro deste mesmo ano avisado pela Inquisição que ele estava proibido de voltar ao Brasil. Em Coimbra, a 21 de Julho é-lhe feito o primeiro interrogatório pelo tribunal do Santo Ofício e a 1 de Outubro entra na cadeia de Coimbra, depois de ser ouvido em várias audiências e condenações. Vieira fica proibido de abandonar Portugal; porém em 1669 consegue finalmente sair e partir para Roma ajudado por alguns poucos amigos. Chegado a Roma não perde a oportunidade de atacar e combater os métodos usados pela inquisição, durante os próximos 5 anos que ali irá viver.

No começo da Primavera do ano de 1675 consegue pela primeira vez a anulação do seu processo nas mãos do Santo Ofício, contra a sua pessoa. E em Agosto de 1675 chega também a Lisboa vindo de Roma depois de ter passado por Veneza, Milão, e Florença onde deixa registado a leitura de vários sermões com algum sucesso.

Em 1679, Vieira publica o primeiro volume do seu livro “SERMÕES” e em 1681 parte de novo para o Brasil, saindo entretanto ao longo de vários anos mais 10 volumes da obra dedicada aos “SERMÕES”.


No ano de 1697, a 18 de Julho, morre o padre António Vieira no Pará, local onde tinha exercido nos últimos anos de sua vida o cargo de Visitador da Companhia de Jesus na Província do Brasil e só no ano de 1781, começam então a sair as obras escritas pelo padre António Vieira.

No ano de 1718 é publicado o volume “Histórias do Futuro” e em 1735 cartas; em 1736, “Vozes Saudosas” e em 1748, “Voz Sagrada, política retórica e métrica”. A obra literária de Vieira é naturalmente o resultado de uma vida de trabalho e luta na procura da justiça, verdade e da melhor consciência humana. Mais riqueza para o bem.

Vieira foi um homem carregado de muita cultura e possuido de vasta visão em todos os sentidos da vida. Foi um homem sem fronteiras e completamente dedicado a espalhar uma espiritualidade diferente.

Defendeu a dignidade e lutou no Brasil e em África contra a escravatura. Como homem de comunicação a sua inteligência sobrepunha-se ao verdadeiro regime religioso, que chegou tantas vezes a criticar e no qual acabou por ser perseguido e julgado várias vezes em tribunais da Inquisição, conseguindo no entanto escapar com vida graças a sua presença e força de espírito.

Alguns amigos influentes e admiradores também o ajudaram e assim pode escapar com a vida de Portugal para o estrangeiro na melhor altura.

Na diplomacia, António Vieira foi admirado e consultado vezes sem conta especialmente na guerra do Pernambuco de Portugueses contra Holandeses. Quando foi embaixador na Holanda, os Holandeses voltaram a apreciar as suas qualidades intelectuais e humanas de talento e de sinceridade, que a própria rainha e o príncipe se tornaram amigos pessoais de Vieira que assim foi considerado ser o melhor embaixador que Portugal tivera na sua história.

Em todas as vezes que passou por Cabo Verde, António Vieira foi um atento observador das qualidades a serem demonstradas já pela pequena população daquela altura dos habitantes da  ilha de Santiagoa quem ele chamava o “Povo Gentil”.

Padre António Vieira – Sangue Caboverdiano
Por Wilson Candeias