O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Primeiros Hotéis na Ilha de São Vicente - Cabo Verde

Segundo o investigador de História e História da Arte, ex-docente e escritor Senhor Joaquim Saial responsável pelo site Praia de Bote, o início do século XX era a época em que a iluminação local ainda dependia dos candeeiros Kitson, daqueles em que um operário os acende diariamente pelo entardecer e esse mesmo operário os apaga ao amanhecer.

Vale lembrar que o Professor Joaquim Saial se refere as notícias da “Folha de São Vicente” na seção do jornal "O Futuro de Cabo Verde"
de 02 de Julho de 1914, periódico que abordava horizontes e sonhos de modernidade para a cidade de São Vicente, dessa forma informou sobre a sessão da Câmara Municipal realizada algures na primeira metade de 1914 sobre a ideia de se substituir a iluminação pública vigente, do sistema Kitson, por uma rede elétrica.

A proposta foi assinada por Júlio Alves da Veiga, presidente da edilidade são-vicentina, e pelo vereador César Serradas, tinha apenas a finalidade de fazer com que se estudassem os meios de se tornar viável o projeto. Nessa mesma edição, a Folha de São Vicente lamentava o fato de se ter gasto muito dinheiro com o sistema de iluminação a acetileno e depois com os candeeiros Kitson, alegando que esse montante poderia ter sido aplicado à partida no moderno sistema elétrico de iluminação.

Nessa época a vida local se movia pachorrenta, porém algo incomum estava acontecendo, havia o drama da falta de chuvas em todas as ilhas, os dias eram abafados e as noites pela falta de energia elétrica eram difusas e soturnas, Governador da Província era Joaquim Pedro Viera
Júdice Bicker, que sem recursos, pouco ou nada podia fazer, apesar estar recente como governador em 1911, mesmo assim já estava envolvido integralmente nos problemas de estiagem das ilhas, que em vão tentava minimizar o sofrimento da população.

Contudo, só no dia 6 de Agosto de 1925, 11 anos depois, a eletricidade deu verdadeiramente o primeiro passo em Mindelo, através da assinatura do contrato para fornecimento da nova energia entre a Câmara Municipal de São Vicente e os industriais Pietro Bonucci e João Rocheteau Lessa. À frente do Município de então estava Francisco Augusto Regala, o médico militar para sempre amado pelos mindelenses que assim punha em prática deliberação tomada pela Assembleia Municipal no ano anterior. Mas a eletricidade somente foi inaugurada em 1926 ─ portanto há 90 anos.

E hoje, ainda, de acordo com o Professor Saial, à obra de construção do primeiro hotel de boa qualidade "Hotel Porto Grande" se deu por volta de 1964, e sua inauguração aproximadamente entre 1965 e 1966, situado na Praça Amílcar Cabral, também se pode lembrar que no site do próprio Hotel Porto Grande encontra-se claramente descrito;
O Hotel Porto Grande fica no coração da cidade de Mindelo, na Ilha de S. Vicente. Sendo um dos mais antigos em Cabo Verde, é também um dos mais modernos, devido à sua recente remodelação. Destaca-se pela sua impressionabilidade e pelos excelentes terraços que possui, com vista para a praça principal de Mindelo”.

Portanto, neste principio do século XXI, este hotel é passo obrigatório para todos aqueles que desejam ouvir a batida do coração desta cidade, "capital cultural" de Cabo Verde. Com acesso fácil e rápido, aos principais locais turísticos e de negócios, lembramos que o aeroporto está a menos de 10 km do hotel, assim quem chegar sempre terá um motorista do hotel o esperando no aeroporto.
Porém, no início do século XX, ainda segundo o Professor Saial em suas pesquisas, afirma, havia dois pequenos hotéis, o primeiro, era o Grande Hotel Brazileiro (assim mesmo, com Z), mas não afirma se esse hotel ficava na Pracinha da Igreja ou na Rua de Coco, o segundo era o Hotel Central de propriedade do inglês Isaac Wahnnon, mas se desconhece a sua localização.
Folheto distribuído entre os passageiros
de navios em trânsito por Cabo Verde

“A título de curiosidade, fui ao meu arquivo e lá encontrei um anúncio a este hotel (ali com o "Brasileiro" escrito com "s"). O dito está publicado em "O Futuro de Cabo Verde" de 1 de Maio de 1913 e diz o seguinte: "Grande Hotel Brasileiro / O melhor hotel de São Vicente / Recomenda-se a todos os Srs. passageiros / Belas acomodações, excelente serviço de comida, à portuguesa, à francesa, à inglesa e à hespanhola (assim mesmo, com "h") / Serviço rápido e escrupuloso.

Este hotel Brazileiro rivalizava com outro, o Hotel Central do inglês Isaac Wahnon que como trunfo tinha "grande sortimento em doces, vinhos finos, cervejas, cafés e... banhos, para além de... preços módicos.” by Joaquim Saial
Folheto distribuído entre os passageiros de navios em trânsito por Cabo Verde
Tanto o Hotel Brazileiro como o Hotel Central não possuíam energia elétrica, desse modo suas dependências e serviços eram bem modestos, apenas se supõe que tinham qualidade superior à das chamadas pensões, hospedarias, pousadas, hostel, ou casas de pasto do início do século XX.

O que nos leva a entender que os mantimentos passaram a ser armazenados com mais qualidade em ambos hotéis a partir de 13 de Junho de 1913, quando passou a ter os serviços de gelo, na oportunidade tal frigorifico foi inaugurado com a presença do governador Joaquim Pedro Viera Júdice Bicker.

Também se desconhece as datas do início das atividades comerciais tanto do Hotel Central, como do Grande Hotel Brazileiro, por falta de registros, ou notícias da época, mas estima-se que uma vez citado no Jornal Folha de São Vicente em 1º de Maio de 1913, iniciaram suas atividades no princípio do século XX, em torno de maio de 1913, ou no período do Governador Artur Marinha de Campos, uma vez escrito a mão o nome do mesmo na foto em anexo, vale dizer que tal governador esteve por apenas 4 meses na governança do arquipélago entre 14-11-1910 a Abril de 1911, na sequência foi substituído por Joaquim Pedro Viera Júdice Bicker que governou entre 1911 e 1915.