O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Custódio José Duarte – Professor Dr. João Vasconcelos

Nascido em 1841 em Vila Real de Trás-os-Montes, Custódio José Duarte formara-se em medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Terminara o curso em 1865 e fora logo colocado como facultativo em Cabo Verde.

Exercera a medicina em várias ilhas durante os quinze anos seguintes, com um intervalo de um ano, entre Março de 1876 e Junho de 1877, durante o qual ocupara em Luanda o cargo de secretário-geral do governo de Angola.

Regressado a Cabo Verde, reformara- se como director do serviço de saúde da província e fixara residência na cidade do Mindelo, onde viria a morrer na estação das águas de 1893. Antes disso, tivera tempo para presidir à Comissão Municipal de São Vicente, para trabalhar como delegado de saúde e médico municipal, e para fundar a primeira biblioteca pública do Mindelo, inaugurada em 1882.

Custódio José Duarte fora também poeta e ensaísta, mas boa parte daquilo que escreveu acabaria por ser atirado ao mar dentro de um cofre, respeitando um desejo que ele manifestara às portas da morte. Salvaram-se os textos publicados até então, o mais conhecido dos quais é o ensaio de 1886 «O crioulo de Cabo Verde», escrito em parceria com Joaquim Vieira Botelho da Costa.

Trata-se de um estudo pioneiro sobre a língua cabo-verdiana, surgido logo após os primeiros trabalhos do folclorista português Adolfo Coelho dedicados ao assunto.

Embora fossem metropolitanos de origem, tanto Custódio José Duarte como Botelho da Costa viveram longas décadas em Cabo Verde e arranjaram mulheres crioulas. Por isso, como observou Félix Monteiro, tiveram ambos tempo de sobra para aprender a língua da terra «em circunstâncias especiais e mesmo amorosamente, sobretudo durante a  infância dos filhos, por intermédio dos quais se caboverdianizaram definitivamente».

Mais tarde, outros médicos metropolitanos que se crioulizaram também por via das mulheres que arranjaram na ilha vieram a tornar-se igualmente queridos do povo e espíritos de luz com presença regular nas sessões espíritas em São Vicente. É esse o caso do doutor Francisco Augusto Regala, que chegou a Cabo Verde aos trinta anos, em 1900, como facultativo de terceira classe, e aqui fez carreira até morrer, em 1937. É esse o caso também do doutor José Baptista de Sousa, que residiu em São Vicente durante a Segunda Grande Guerra, e cujo nome foi dado logo após a independência de Cabo Verde ao hospital da ilha, a contracorrente da africanização da toponímia e do corte com as referências ideológicas  Portugal – prova mais que acabada de como o médico português era tido em boa conta na memória social, três décadas corridas após a sua despedida do arquipélago.

Era então o espírito superior de Custódio José Duarte um dos espíritos guias do Centro Amor e Caridade de Santos, e Augusto Messias de Burgo seu instrumento. Custódio José Duarte encaixava no perfil habitual dos espíritos guias dos centros kardecistas do Brasil. Eram quase sempre espíritos de europeus, ou então brasileiros brancos, que em vida se tinham notabilizado como médicos, cientistas, políticos ou homens de letras.

Os espíritos de médicos abundavam, sem dúvida porque os centros espíritas pretendiam ser, além de escolas de vida, hospitais onde se curava todo o tipo de enfermidades – não exclusivamente aquelas cuja causa última se julgava “psíquica” (o que queria dizer, no vocabulário espírita, de ordem espiritual).

Na década de 1930, António Cottas, o presidente de então do Centro Espírita Redentor do Rio de Janeiro, lembraria o falecido Custódio Duarte como um médico de espírito aberto, dedicado ao estudo e à utilização de plantas medicinais, que colhia «os mais satisfatórios resultados no tratamento simples e eficaz a que submetia os seus doentes, por meio de plantas brasileiras, africanas e portuguesas».

Baseado não sei em que fontes, António Cottas atribuiria ainda a Custódio Duarte duas afirmações que, em seu entender, demonstravam a simpatia do médico pelos princípios espíritas:  «de nada valerá ingerir remédios se o espírito não tiver vontade de curar-se»; e «um copo de água bebido com o pensamento firmado nas alturas, equivalerá ao melhor dos medicamentos onde houver falta de facultativo e de medicamentos».

Haverá como refutar esta segunda asserção?

Convém abrir aqui um parêntesis para ressalvar que nem toda a gente em Cabo Verde estava disposta a acreditar que o espírito de Custódio Duarte andava ao serviço dos médiuns do centro Amor e Caridade de Santos – e, depois, dos médiuns do Centro Redentor do Rio de Janeiro. Como tivemos ocasião de verificar, a esquerda republicana que pontificava no semanário A  Voz de Cabo Verde torcia bastante o nariz à moda do espiritismo.

Por isso, não é de estranhar que um dos articulistas deste jornal, o célebre poeta, compositor e polemista Eugénio Tavares, se tenha dado ao trabalho de investigar a verosimilhança das alegadas manifestações do espírito do médico. Tendo ouvido dizer que o «luminosíssimo espírito» colaborava no periódico brasileiro Tribuna Espírita, Eugénio Tavares (que assinava uma coluna de crítica social com o pseudónimo “Tambor-Mor”) pusera-se a cotejar os discursos de além-túmulo publicados na folha espírita com os artigos que Custódio Duarte escrevera em vida para o Boletim Colonial. Lera e relera uns e outros, e concluíra que aos primeiros faltava «o aroma de vernaculismo, o tic de elegância, o brilho da alma de Custódio!».

Há quem diga, mas isto não é garantido, que além de ter levado para Santos o espírito do seu conterrâneo Custódio Duarte, Maninho de Burgo foi ele próprio o fundador do Centro Amor e Caridade. Vários espíritas mais velhos com quem conversei em São Vicente disseram-me ainda que era Maninho de Burgo quem presidia o centro de Santos no começo de 1910. E que foi portanto este cabo-verdiano quem entregou o bastão ao comendador Luiz de Mattos, o negociante português que tomou a presidência do centro em Janeiro daquele ano. Esta história, cuja facticidade não me foi possível apurar, é contada com orgulho pelos espíritas de São Vicente que a conhecem. Se Maninho de Burgo não tivesse intuído o arcabouço espiritual de Luiz de Mattos e legado o comando do Centro Amor e Caridade ao português, nunca este teria chegado a desenvolver a bela doutrina da verdade.

Se não fosse um cabo-verdiano, aquilo que é hoje o racionalismo cristão não existiria. Certo é que se o Centro Amor e Caridade de Santos decidiu enviar um donativo de alimentos para Cabo Verde em 1911; se a partir dessa altura o espiritismo começou a ganhar raízes firmes em São Vicente; se a variante que vingou no arquipélago veio a ser o que mais tarde se chamaria racionalismo cristão, e não o kardecismo; se existem actualmente em Cabo Verde vinte e cinco centros racionalistas cristãos frequentados por milhares de pessoas; e se no resto do mundo (nos Estados Unidos da América, no Senegal, em Angola, em Portugal, na Holanda, na França, na Bélgica, no Luxemburgo, na Suíça e na Suécia) existem hoje mais de trinta centros racionalistas cristãos dirigidos e maioritariamente frequentados por cabo-verdianos e seus descendentes – tudo isto parece ter decorrido em primeiro lugar da circunstância de dois emigrantes portugueses, Augusto Messias de Burgo e Luiz de Mattos, um natural de Cabo Verde e o outro de Trás-os-Montes, se terem cruzado num obscuro centro espírita de Santos em começos de 1910. Circunstância acidental, sou tentado a acrescentar, o bater de asas de uma borboleta no Japão. Circunstância determinada pelo Astral Superior, que destinou a Cabo Verde, pátria de emigrantes, a missão de expandir o Racionalismo Cristão pelo mundo – corrigem-me os meus amigos espíritas de São Vicente. Contra argumentos destes não há factos. E por enquanto é só a estes que me quero ater

Custódio José Duarte
Por Professor Dr. João Vasconcelos

Fonte:
Livro - História do Racionalismo Cristão em S. Vicente – página 86
Prof. João Vasconcelos
Universidade de Lisboa
O Livro a "História do Racionalismo Cristão em Cabo Verde", está a venda em todas as Casas Racionalistas de Cabo Verde e no Centro Cultural do Mindelo.


Seu custo no escudo Cabo-verdiano é de 800$00 (oitocentos escudos), para os interessados do exterior é de aproximadamente 8 (oito euros), mais os custos de envio.
Poderá ser solicitado à Filial de Ribeirinha, através do Presidente Sr. Arlindo Flávio, no endereço: arlindo_flavio@hotmail.com