O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Em 1911 a fome era um mal endémico em Cabo Verde

Em 1911 a fome era um mal endémico em Cabo Verde, e continuaria a sê-lo durante mais quarenta anos. O arquipélago situa-se abaixo do trópico de Câncer, limite norte de deslocação da frente intertropical, e cerca de seiscentos quilómetros a ocidente do Cabo Verde do Senegal, de onde lhe veio o nome. Até 1460 as ilhas eram desabitadas.
Por boas razões. A localização na zona do Sahel e a insularidade determinam um quadro climático marcado por temperaturas quentes e pouco variáveis ao longo do ano (oscilando entre os 20º e os 30º centígrados) e pela alternância entre uma breve e volúvel estação das águas (as água em crioulo), que vai sensivelmente de Agosto a Outubro, durante a qual se registam alguns dias de chuva e aumentam a temperatura e a humidade do ar, e uma longa estação seca, seca deveras, que dura o resto do ano. A aridez é a nota dominante na paisagem das ilhas e faz do arquipélago no seu conjunto um sistema ecológico impróprio para uma colonização dependente da agricultura.

Mas foi exactamente este o rumo que as coisas tomaram desde o começo de seiscentos. Decaiu por essa altura o primeiro ciclo de colonização, durante o qual Santiago, a maior das dez ilhas de Cabo Verde, chegou a ser um dos mais importantes entrepostos de escravos e outras mercadorias do espaço económico atlântico então emergente. Este ciclo principiara em 1460, com a tomada do arquipélago deserto pela Coroa portuguesa e com o estabelecimento em Santiago da praça comercial da Ribeira Grande – a actual Cidade Velha.

A partir do início do século XVII, o declínio do trânsito náutico na Ribeira Grande levou boa parte da população das ilhas a ensimesmar-se e a depender vitalmente da produção agrícola autóctone. Os grandes proprietários, que até então investiam em culturas de exportação produzidas com mão-de-obra escrava, começaram a alforriar alguns dos seus escravos, a deixar fugir outros e a arrendar as terras a camponeses livres e pobres, que as exploravam numa lógica de auto-subsistência.

A cultura associada do milho e do feijão, quase sempre em terrenos de sequeiro, passou a providenciar a base da alimentação dos ilhéus. Mas esta cultura dependia vitalmente das chuvas, e as chuvas eram incertas e frequentemente escassas. Cabo Verde viveria por isso sob o espectro da fome durante três séculos e meio.

Havia fomes praticamente anuais, quando as reservas alimentares se esgotavam antes que o milho e o feijão lançados à terra tivessem dado grão novo. Nos anos de estiagem, havia fomes mais prolongadas e mortíferas. Às vezes a seca confinava-se a uma ilha ou um grupo de ilhas. Outras vezes assolava o arquipélago inteiro. Quando isto acontecia, ocorriam as grandes fomes, algumas das quais chegaram a matar metade dos habitantes de Cabo Verde.

Em 1911, a última grande fome de que havia memória era a de 1903-1904, que coincidira com um surto de varíola e fizera agonizar até à morte cerca de quinze mil pessoas – um décimo da população do arquipélago.

Mas no início da estação das águas daquele ano a situação voltava a apresentar-se preocupante, sobretudo em Santo Antão, ilha que dista apenas quinze quilómetros de São Vicente e cujo imenso perfil montanhoso domina o horizonte do Mindelo.

Em Agosto de 1911 o Boletim Oficial dava assim conta da situação que ali se vivia:
O estado alimentício foi muito irregular. Cada dia se acentuou mais a miséria por efeito da crise alimentícia, apesar dos vários trabalhos públicos abertos para acudir a população necessitada. Em todos os pontos da ilha havia fome, com excepção da Ponta do Sol e Ribeira Grande. O comércio conservou-se pouco animado, limitando-se à venda de géneros alimentícios. A pouca produção que há nos terrenos de regadio, tem sido mais ou menos raziada pelo povo, em repetidos furtos. Choveu a 5, 6 e 7 e foram feitas sementeiras.

As razias desesperadas e os trabalhos públicos que as autoridades mandavam abrir eram panaceias que não bastavam para fazer face à fome nos anos de estiagem. Um outro expediente, adoptado pela primeira vez em 1863 e que se manteve em uso durante mais de cem anos, era o encaminhamento dos cabo-verdianos incapazes de assegurarem a sua subsistência para as roças das ilhas de São Tomé e do Príncipe, e em menor número para Angola.

Fonte:
Livro - História do Racionalismo Cristão em S. Vicente
Prof. João Vasconcelos
Universidade de Lisboa

O Livro a "História do Racionalismo Cristão em Cabo Verde", está a venda em todas as Casas Racionalistas de Cabo Verde e no Centro Cultural do Mindelo.
Seu custo no escudo Cabo-verdiano é de 800$00 (oitocentos escudos), para os interessados do exterior é de aproximadamente 8 (oito euros), mais os custos de envio.

Poderá ser solicitado à Filial de Ribeirinha, através do Presidente Sr. Arlindo Flávio, no endereço:
arlindo_flavio@hotmail.com
 
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