O Mar!
Cercando prendendo as nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias, batendo a sua voz de encontro aos montes,
… deixando nos olhos dos que ficaram a nostalgia resignada de países distantes …
… Este convite de toda a hora que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir e ter que ficar! …
— Poema do Mar, Jorge Barbosa

Augusto Messias de Burgo - História do Racionalismo Cristão em Cabo Verde

Desde meados do século XIX, São Tomé e Príncipe tornara-se um importante sorvedouro de trabalhadores braçais provenientes de outras colónias portuguesas, sobretudo Angola e Cabo Verde. Implantara-se ali nessa época uma economia de plantação centrada na produção de cacau e café e orientada para a exportação. Esta reconfiguração económica do arquipélago equatorial e a libertação dos escravos decretada em 1875 tinham obrigado à demanda de serviçais noutras paragens.

Cabo Verde, a braços com uma população excessiva para os recursos de que dispunha e sujeito a crises de fome recorrentes, era um excelente viveiro de mão-de-obra deslocável. A deslocação continuada de trabalhadores cabo-verdianos ao longo de um século foi possível em parte porque durante esse tempo a fome nunca deixou de fustigar o arquipélago. Como escreveu o historiador António Carreira, que cunhou a expressão “emigração forçada” para referir o trânsito de cabo-verdianos para São Tomé e Príncipe, «se existia liberdade de opção, ela estava condicionada à aceitação do embarque ou à espera da morte pela fome. Ante este dilema falar em opção é pura fantasia».

Por outro lado, a angariação de trabalhadores fazia-se continuamente porque os níveis de morbilidade e mortalidade nas roças de São Tomé e Príncipe eram de tal maneira elevados que impediam a auto-reprodução da mão-de-obra e impunham a sua renovação constante.

Não é seguro, portanto, que a maioria daqueles que escaparam à morte por inanição em Cabo Verde tenha sobrevivido às condições de trabalho desumanas e ao clima insalubre que foram encontrar em São Tomé e Príncipe.

Além da abertura de trabalhos públicos e da emigração para as roças das ilhas equatoriais, outro paliativo para as fomes eram as subscrições que alguns filantropos cabo-verdianos mais abastados e algumas associações de beneficência portuguesas ou de emigrantes cabo-verdianos faziam correr. Grémio Lusitano de Lisboa, por exemplo, acudiu os famintos de Cabo Verde em 1902, e voltaria a fazê-lo em 1913, enviando cem sacas de milho para Santo Antão.

Em 1914, a União Caritativa Cabo-Verdiana, fundada por imigrantes estabelecidos no estado norte-americano do Massachusetts, enviaria também alimentos para o arquipélago.

Em 1920 e 1921, o maçon Adelino Figueiredo Lima presidiria a uma Comissão Central de Assistência que faria correr em Cabo Verde, no Brasil e em Portugal uma grande subscrição para socorrer os famintos.

As dádivas alimentares vindas do exterior não eram pois invulgares no começo do século XX. Mas por que razão vinha um centro espírita brasileiro acudir o povo de Cabo Verde no ano de 1911? E quem era ao certo Augusto Messias de Burgo, que a imprensa da época identifica simplesmente como representante desse centro espírita no arquipélago?

No momento em que escrevo, passam mais de noventa anos sobre o acontecimento. Encontrei muito poucas referências a Messias de Burgo na documentação que pude recolher em Cabo Verde e naquela que fui autorizado a consultar no Centro Redentor do Rio de Janeiro. Conversando com pessoas idosas ligadas ao espiritismo em São Vicente, consegui reunir mais algumas informações sobre Messias de Burgo, incertas memórias de memórias narradas aos meus interlocutores por gente que o conheceu em vida mas que já morreu. São estes os elementos de que disponho para o apresentar.

Faltam-me dados biográficos tão elementares como as datas e os locais de nascimento e de óbito. Duas coisas porém são certas: Augusto Messias de Burgo era cabo-verdiano e era vulgarmente conhecido como Maninho de Burgo, ou Maninho Burgo. Maninho é um “nominho” (diminutivo) muito comum em Cabo Verde, e em Cabo Verde as pessoas costumam ser mais conhecidas pelos seus nominhos do que pelos nomes de registo. Disseram-me que a dada altura Maninho Burgo emigrou para o Brasil e se estabeleceu por lá, continuando apesar disso a visitar São Vicente com certa regularidade. É certo que viveu algum tempo em Santos, talvez tenha morado também no Rio de Janeiro, e alguém se lembra de ter ouvido dizer que terminou os seus dias na Argentina.


Seguro é que, por volta de 1910, vivia em Santos, na companhia da sua mulher.

Localizadas setenta quilómetros a sudeste de São Paulo, Santos era um dos principais destinos da emigração portuguesa nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, à semelhança de outras cidades portuárias sul-americanas como o Rio de Janeiro, Montevideu e Buenos Aires.

Nestas cidades instalaram-se também largas centenas de cabo-verdianos, principalmente de São Vicente, que logravam embarcar nos vapores que faziam escala no Porto Grande quando cruzavam o Atlântico vindos da Europa rumo à América do Sul.

Ao contrário do que sucedeu noutros destinos migratórios da época, como os Estados Unidos da América ou São Tomé e Príncipe, nos países sul-americanos os cabo-verdianos não construíram colónias ou comunidades étnicas duradouras. A emigração cabo-verdiana para a América do Sul é em geral um caso de emigração sem etnicização.

Para tal terão concorrido vários factores, entre os quais o carácter maioritariamente masculino da corrente migratória. É difícil identificar os cabo-verdianos nas estatísticas brasileiras de imigração, uma vez que eram subsumidos no contingente de nacionalidade portuguesa – que de jure era a sua. Muitos emigrariam também de forma clandestina.

São Vicente no ínicio do século XX.

Talvez Maninho de Burgo fosse um embarcadiço, e daí as vindas frequentes a Cabo Verde. Naquele tempo, o que não faltava em São Vicente eram vapores e veleiros que ligavam a ilha à América do Sul. Embora na década de 1890 o Porto Grande tivesse conhecido uma quebra acentuada de movimento, com a consequente vaga de desemprego e as primeiras grandes greves de trabalhadores, nos primeiros dez anos do século XX o trânsito naval havia retomado, entrando no porto para se abastecerem de carvão, água e mantimentos cerca de mil e quinhentos navios de longo curso por ano.

Também não é de excluir a hipótese de que Maninho de Burgo se tenha estabelecido como negociante em Santos, como faziam naquele tempo tantos portugueses. Um homem de negócios medianamente bem sucedido teria posses para se permitir retornar à terra de vez em quando. É possível até que tivesse interesses comerciais em São Vicente, como duas ou três pessoas me disseram. Mas nada disto é muito certo.

Contaram-me que, antes de partir para o Brasil, Maninho de Burgo era um homem de ofícios em São Vicente, ferreiro segundo alguns. Um velho lojista do Mindelo que preside a sessões espíritas vai para quarenta anos asseverou-me que Maninho de Burgo era casado mas não tinha filhos, não podia tê-los.

Seria pura coincidência que um homem sem filhos se chamasse Maninho?
Seria este nome uma alcunha insinuante acerca da sua eventual infertilidade?
Ou será que o meu informante, ou quem lhe contou isto, se deixou levar pelas palavras e inventou um homem estéril sugestionado pelo significado do nominho que lhe deram? Não sei. A mesma pessoa contou-me também que Maninho e a mulher, resignados, tomaram uma menina como filha de criação. E que mais tarde a menina morreu, na flor da juventude. Destroçado pela perda, o casal resolveu deixar São Vicente e ir para o Brasil tentar melhor sorte. Emigrar para esquecer. Não tinham porém dinheiro para a passagem. Ter-lhes-ão valido nessa altura uns amigos ingleses, companheiros de críquete de Maninho.

Fonte:
Livro - História do Racionalismo Cristão em S. Vicente
Prof. João Vasconcelos
Universidade de Lisboa

O Livro a "História do Racionalismo Cristão em Cabo Verde", está a venda em todas as Casas Racionalistas de Cabo Verde e no Centro Cultural do Mindelo.
Seu custo no escudo Cabo-verdiano é de 800$00 (oitocentos escudos), para os interessados do exterior é de aproximadamente 8 (oito euros), mais os custos de envio.

Poderá ser solicitado à Filial de Ribeirinha, através do Presidente Sr. Arlindo Flávio, no endereço:
arlindo_flavio@hotmail.com

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